quarta-feira, 13 de julho de 2011

Ponta Pé Inicial

Quero primeiramente dizer que o texto que se segue tem como objetivo dar o pontapé inicial nas discussões que se estendem para fora dos momentos em que o Grupo de Agroecologia da UFJF acontece. Assim sendo, achei que seria legal contar um pouco do que vivi em Divino e na Comunidade Quilombola de São Pedro de Cima nesse último fim de semana.

Depois de quase um ano e meio de recesso, finalmente estive de novo na comunidade de São Pedro de Cima e voltei muito otimista e feliz com o reencontro, as conversas e a agroecologia.

Vou me ater bastante a esta última alegria porque como todos sabemos estamos num período de consolidação dessa discussão e dessa prática em nossas vidas e no ambiente acadêmico da UFJF e ver que a agroecologia é uma realidade deixa qualquer pessoa que nela acredita bem radiante.

Estive no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Divino e conversei por um tempo com o presidente do Sindicato, Paulinho, ou seria Paulão?

O Sindicato trabalha com a agroecologia como alternativa ao modelo hegemônico vigente e em parceria com o CTA-ZM (Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata) já tem dezenas de experiências bem sucedidas na região.

Paulinho é um sem-terra que luta pela prática agroecológica nos bairros rurais do entorno de Divino, trabalha numa terra arrendada com criação de animais e pretende ajeitar sua situação financeira para que ainda este ano consiga uma terra em que possa também ele praticar a agroecologia que já é adotada como meio de produção em muitas comunidades locais.

Segundo ele, a transição agroecológica é facilitada em propriedades que se encontram com níveis de produção bem baixos como consequência das péssimas condições ambientais da propriedade, do alto custo dos insumos, dentre outros.

Assim, ele deu um exemplo da família do Sessé e da Selma que mais ou menos em 2001 resolveram iniciar os trabalhos para a transição. A família se encontrava endividada e com a plantação de café sobrevivendo precariamente, e portanto necessitava urgentemente de uma alternativa ambiental e economicamente sustentável. Hoje, eles possuem uma diversidade de cultivos, equilíbrio ambiental na propriedade e uma qualidade de vida bem maior.

Nesse sentido, preciso dizer que os moradores de São Pedro estão bem satisfeitos com a colheita do café esse ano, uma vez que os preços estão mais altos do que no ano passado, ao que parece a diferença chega a R$ 200,00 por saca e a produção, em geral, também foi melhor por conta das condições climáticas (pouca chuva) que favoreceram a plantação. Então, esse não é dos melhores momentos para chegarmos com essa idéia em São Pedro, mas mesmo assim, Paulinho falou que a transição pode começar lentamente com 2 ou 3 famílias que de alguma maneira acreditam na idéia e que ele conhece algumas pessoas que tem esse perfil lá em São Pedro. Falou de um tal de Gilmar e do Seu Antônio que diga-se de passagem está com um estado de saúde inacreditável. Beirando o centenário, Seu Antônio é um exemplo de alegria, disposição, luta, condicionamento físico, trabalho e se eu continuar falando mais, corro o risco de completar umas 30 linhas só com suas qualidades, rs.

Paulinho se mostrou muito disposto e entusiasmado com a idéia de começar esse trabalho em São Pedro, uma vez que o sindicato não consegue chegar a todas as comunidades que gostaria, principalmente por questões financeiras. Ele demonstrou interesse em nos ajudar e em fortalecer essa parceria e ressaltou o que nós também já constatamos que é o fato de algumas pessoas de São Pedro já adotarem práticas agroecológicas em suas propriedades, sem no entanto, dar nome a essas práticas.

Em contrapartida, sabemos também que em São Pedro se usa uma grande quantidade de agrotóxicos e alguns moradores já reconhecem os danos que eles têm não só para a saúde humana, como também para o meio ambiente. Conversando com a Ivanete, soube que seu irmão ficou 4 meses acamado por conta do uso indiscriminado de agrotóxicos. Essa pode ser uma das várias portas de entrada para formas alternativas de produção na comunidade, um momento de vulnerabilidade dos preceitos da Revolução Verde.

Mas voltando a questão do momento ideal para se fazer a transição em qualquer comunidade do mundo, Paulinho falou sobre consciência política, que eu também entendo como consciência agroecológica, no sentido de que é preciso que se acredite realmente na agroecologia para que quando os preços do café estiverem elevados, os agricultores não a abandonem para produzir a maior quantidade possível de café e só café. De acordo com ele, ao mesmo tempo em que já existem vários exemplos de sucesso na região, existe também esse tipo de situação e a transição não consegue se completar, por isso a necessidade de uma consciência agroecológica.

A metodologia usada por eles é a do intercâmbio de saberes que geralmente ocorre de 40 em 40 dias e conta com a participação de membros do sindicato, agricultores familiares da região e também pessoas ligadas ao CTA. É o momento de trocar experiências de sucesso e de fracasso e pode ser utilizado também como uma metodologia de transição agroecológica para os agricultores que ainda não praticam agroecologia. Falo isso, porque participar desses intercâmbios pode ser uma primeira aproximação para quem ainda não conhece, nem pratica a agroecologia, inclusive os moradores de São Pedro. Estamos todos convidados a participar dessas trocas de saberes e a próxima deve ocorrer no início de Agosto. Fiquei de confirmar a data exata por telefone com o Paulinho e penso que nós deveríamos nos esforçar para irmos nesse próximo intercâmbio, quem sabe até não podíamos nos hospedar nas casas dessas famílias que já estão inseridas na produção agroecológica. É um ponto para pensarmos com atenção.

O slogan do intercâmbio é: “Aprendeu, tem que passar” e se opõe a competitividade que faz parte do ambiente do agronegócio.

Além disso, o Paulinho falou de uma mulher chamada Simone Ribeiro que trabalha em alguma instituição aqui em Juiz de Fora e que tem muito conhecimento para nos passar. Ao que parece ela é da Pedagogia e trabalhou bastante com eles em algum momento. Acho que vale a pena tentar contato.

Conversamos também sobre o argumento daqueles que enxergam a agroecologia de maneira romântica e pensam que a teoria é linda, mas a prática inviável. O argumento é basicamente, o fato da quantidade da produção agroecológica ser insuficiente para alimentar grandes contingentes populacionais. Segundo Paulinho, o argumento já está superado, uma vez que se sabe que a agroecologia, em geral, e em seus estágios mais avançados, consegue sim produzir grandes quantidades de alimentos, salvo aqueles que são mais difíceis de se cultivar e que por isso ainda são produzidos em pequenas quantidades, mas que ainda assim já são bem razoáveis. É o caso do tomate que ainda está em processo de experimentação na região, mas que já registrou quantidades que chegam aos 300 kg.

O tomate é um cultivo muito delicado que não tolera muito bem nenhuma pequena dificuldade para seu desenvolvimento e por isso necessita de cuidados especiais, como por exemplo estufas para manter as condições climáticas ideais, dentre outros. Por isso, Paulinho falou sobre a importância de se ter subsídios do governo destinados também para a produção agroecológica, para que ela realmente consiga se consolidar e abarcar o maior número de cultivos possíveis, até mesmo os mais enjoados, como o morango e o tomate.

Bom, acho que é isso, tentei colocar aqui um panorama geral da minha conversa com o Paulinho, acho que já é um ponto de partida para que comecemos a pensar nossas primeiras atividades em São Pedro de Cima. Voltei muito feliz com o que ouvi do Paulinho e com sua disposição em fazer a aliança conosco. Ele também disse que fica feliz de ver que a academia está se movimentando e se preocupando em levantar a bandeira da agroecologia.

A única ressalva que ele fez diz respeito ao tempo de duração do nosso projeto, já que ele não gosta muito da idéia de efetivar a parceria, iniciar os trabalhos e depois correr o risco de acabar o projeto e a gente deixar o processo pela metade. Eu disse a ele que temos no mínimo 2 anos para trabalhar e que não temos a intenção de abandonar as atividades sem terminá-las. Tomara que as burocracias não nos atrapalhem muito nesse sentido como aconteceu no projeto do Ecomuseu que tivemos que ficar afastados da comunidade por muito tempo por conta dos financiamentos. Isso prejudica demais o trabalho e desanima a gente que não quer enxergar a comunidade simplesmente como um objeto de estudo.

Para finalizar duas dicas da nossa querida Ivanete: se as suas galinhas não estão botando ovos diariamente é legal reforçar a alimentação delas com casca de ovos moída, areia, fubá e um pouco de ração. E pra você que tem sinusite de maneira insuportável como eu, a dica é pegar as florzinhas da camomila e torrá-las na chapa. Ela acaba virando um pó que pode ser inalado e que vai fazer você espirrar bastante,rs. Já testei e aprovei, só faltou dar onda, rs!

Fico por aqui, escrevam seus comentários e quem quiser postar algo, o blog está de portas escancaradas. Um abraço e até a próxima!

2 comentários:

  1. Texto escrito por Mariana Vilhena!

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  2. Po que ponta pé inicial!!! adorei o texto de verdade.. me encheu de esperanças e deu vontade de ir logo para São Pedro! fiquei feliz de mais com a iniciativa!
    Vamos combinar essa ida pra já!
    BEijao

    Nathan

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